Não conheço uma única pessoa que não tenha facebook.
E não conheço uma pessoa que não me pergunte "Oh Rita, usas facebook?".
E o mais estúpido é a cara de parvos com que ficam quando lhes respondo "Não!!!".
Será que ter facebook é como o recenseamento? Será um contágio mundial?
Certamente que sim. Mas eu não fui contagiada. Ainda, pelo menos.
Terei algum problema? Devo ir ao médico? E fazer medicação?
Conheço quem exponha a vida ao detalhe na internet. Há os que colocam aquelas frases eruditas, sábias que não interessam a ninguém... Há os que dizem estar tristes (e apelam para um colinho maçico), etc, etc, etc. Mas o que acho mais giro são os que passam o dia todo no facebook quando, supostamente, estão a trabalhar.
Não dá. Não consigo perceber como podem trabalhar se passam o dia a ver os perfis de fulano e sicrano, a plantar alfaces (??) e tomates (??).
E há ainda os que dizem que têm conta no facebook só porque sim, mas raramente lá vão. Que treta! Claro que vão.
...
Rita, tens de criar uma conta. Aquilo é fixe!- Dizem-me.
É?!Mas é fixe porquê?!- Pergunto.
Olha, porque podes conversar, ver o que as pessoas fazem, as viagens que fizeram, se casaram, se tiveram filhos... - Respondem-me.
Hummm, estou a ver. Mas e o que é que isso me interessa? As pessoas com quem me preocupo sei onde estão, como estão. E elas sabem de mim. Basta um telefonema, um sms, um email, uma carta, um café ou na melhor das hipóteses, uma jantarada. Quero lá saber quem se casa, quem teve filhos ou quem foi para padre. - Disse.
Sim, admito que talvez esteja a ter mentalidade de pré-histórica, mas não me consigo render à magia das pseudo redes sociais. Pseudo? Sim, p-s-e-u-d-o. As redes sociais existem fora de um computador, fora de um ecran, com pessoais reais, de carne e osso, que se conhecem ou então até nem sequer se conhecem mas falam olhos nos olhos sem barreiras físicas.
...
"Conheces a Ana Santos?"
"Ana Santos? Não, quem é?
"Aquela que namora com o Miguel, o rapaz que trabalha no café New, na rua do Lotus."
"Ah, sei quem é, sei. Nunca falei com ela, mas tenho-a adicionada no meu facebook."
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"A 26 de Junho de 200101- Estado civil: numa relação. No mural: esta é a mulher da minha vida. Amo-a até aos fins dos meus dias.
A 27 de Junho de 200101- Estado civil: solteiro. No mural: apanhei-a com outro. É uma cabra. Nunca mais a quero ver à frente.
A 28 de Junho de 200101- Estado civil: casado. No mural: ainda a amo e casei-me com a mulher da minha vida. É para sempre!
A 29 de Junho de 200101- Estado civil: divorciado. No mural: Estou triste. Ela deixou-me. As mulheres são todas iguais."
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Um jovem de 17 anos ao telemóvel com um amigo:
"Epá, juro-te! Ela disse que sim!!!!!!!Perguntei-lhe se queria andar comigo e ela respondeu. SIMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM, tás a ver!"
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Um marido a trabalhar no computador às 2h18 da manhã:
"... Sou solteiro, empresário, sem filhos e tu?...
Também te acho super gira e simpática. És boa pessoa. Queres combinar um jantar para amanhã? Gostava de ver-te e estar contigo."
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André, 34 anos, acabado de sair de uma relação de 3 anos com a Filipa:
Perfil de Filipa
Estado civil: numa relação.
Mural: Pedro, és tu o tal. És tu!!!!!! <3-te
Na cabeça do André: Não acredito nisto. Ainda na semana passada a relação acabou e tu já estás com outro?????? Como é possível? Quero desaparecer!!! Morri.
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Podia estar aqui horas e horas a inventar discursos para possíveis histórias reais (ou não) que acontecem a todo o instante no facebook. Aceito sugestões. Não sei de tudo o que se lá passa. Sei o que oiço, o que me dizem e o que leio. E acho interessante a forma como as pessoas inconscientalizam (aush, que palavrão!!!!! Não me parece que a palavra exista, mas se não existir, passa a existir!!) uma rotina virtual como se fosse real. E consequentemente trazem o virtual para o real. Onde quer se vá, só se ouve "Viste o que ele escreveu no facebook?", "Ele tem uma foto nova"...
Claro que, à parte disto, o meio em questão também serve, de forma exponencial, como divulgação da liberdade de expressão e este é um ponto muitissimo positivo do dito cujo.
A realidade deste universo é que, provavelmente, mais de 95% das pessoas que navegam assiduamente pelas ruelas do facebook sentem-se verdadeiramente sozinhas e procuram alguma coisa. Um amigo, um marido, um grupo de identificação social, um confidente, uma companheira, um sorriso. Seja o que for.
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Admito. Não sou excepção. Não tenho três olhos, não como pedregulhos ao pequeno almoço, não sou viscosa.
Também procuro algo. Cá dentro, lá fora.
Só não gosto da exposição mediática e fervorosa do sitio.
E tenho dito!
E por favor, não me voltem a questionar "Rita, qual o teu facebook?" que me dá uma coisinha má!!! :)
Um beijo
Rita
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