sábado, 28 de agosto de 2010

D. Juan lisboeta

Antes de apresentar a próxima história tenho a dizer-vos que é real (sim, de carne e osso). Fui testemunha da mesma e como prometi ao protagonista, aqui estou eu a contá-la.
Gustavo, 33 anos, engenheiro informático, estado civil: solteiro. Depois de muitos e muitos anos de uma relação cansativa e desgastante, eis que o homem dos olhos de mel decidiu, finalmente, por um ponto final num corpo que não tinha pernas para andar. Bom, nem pernas, nem braços, nem nada. Não tinha futuro, por mais que os dois fizessem por isso.
Há relações assim. Amamos e somos amados mas não somos felizes. Como digo “não basta amar” e por mais que nos custe, um ponto final dói muito menos que umas reticências.
Como vos contava, Gustavo estava solteiro. Após uns meses de luto e de arrumações interiores, lá se sentiu preparado para uma lufada de ar fresco na sua vida. Percebeu que precisava de conhecer pessoas novas, giras e interessantes. E o que fez? Inscreveu-se num desses sites de encontros. Pagou uma pipa de massa que lhe exigiram para ser membro VIP e deste modo conhecer as mulheres mais compatíveis com o perfil que ele mesmo tinha criado.
Os contactos começaram. Numa primeira fase pelo chat que o dito site tem e posteriormente MSN, troca de número de telemóveis e se a situação o exigisse, finalmente, o encontro.
Gustavo era um tipo impecável. Cavalheiro, sorridente, com sentido de humor apurado, inteligente e acima de tudo um bom amigo. Poucas eram as mulheres que não o queriam agarrar e algemar para que fosse eternamente delas. Encontro após encontro, Gustavo começou a enrolar-se com amigas por quem sentia alguma empatia e claro, atracção! Uma, duas, três, quatro, cinco, seis…
Jamais, em tempo algum nos seus trinta e três anos de vida tinha tido uma animação sexual tão activa. Na verdade, à pala do site conseguiu um curriculum vitae bastante preenchido e digno de acesso directo a Oxford (sexual).
Porém, Gustavo tinha uma particularidade. Teve sempre o cuidado de partilhar com quem estava na sua cama que não queria nada mais que aquilo. Nunca alimentou falsas e eternas histórias de amor. Era sincero, directo, mas meigo. Deu a muitas o que estas nunca tiveram: alguém que as escutasse.
Tomar um café com este homem era uma risota constante de tantas aventuras que tinha para partilhar.
Num belo dia combina um encontro com uma mulher que parecia ser uma deusa acabada de sair do Monte Olimpo. Estávamos a falar via MSN quando me diz que tem de ir porque não queria fazer esperar a donzela. Lá nos despedimos e ele lá foi todo entusiasmado.
A tarde corria normalmente quando oiço o tlm a apitar. Mensagem recebida. De: Gustavo. Conteúdo: Daqui a 5 minutos, liga-me!!
Ligo-lhe???? Pensei. Será que a mulher afinal tinha pés grandes????
Passados 5 minutos ligo e pergunto se está tudo bem. Ele lá me consegue dizer para eu inventar qualquer coisa para ele pirar-se daquele inferno.
Eu sob pressão, só me lembrei de lhe dizer que o chefe me tinha ligado e íamos ter uma reunião urgente daí a 20 minutos.
Era domingo!!!! Nenhum chefe precisa de se reunir num domingo cheio de sol!!! Sim, eu sei. Quero dizer, lembrei-me disso depois, mas foi o que me saiu.
Desligado o telemóvel fiquei em pulgas para ele me contar o pesadelo. Curiosidade natural, ora!!! Vocês também não teriam?
Conclusão: a suposta deusa mais parecia uma bruxa. Sim, era feia que nem um bode, tinha um dente pendurado no maxilar superior, o único, por sinal, um filho de 4 anos que parecia possuído e ainda por cima não parava de se insinuar corporalmente ao meu amigo.
Claro que eu, com o meu riso fácil, ri como se não houvesse amanhã. Só de imaginar aquele cenário idílico ficava com soluços.
Ainda lhe perguntei:
-Mas ela não tinha fotografia no perfil?
-Tinha e várias, mas estava sempre de boca fechada e ficava sempre muito favorecida!! Respondeu-me.
-Muita sorte por não ser um ele tiveste tu! Disse-lhe logo de seguida com um sorriso nos lábios.
A verdade é que Gustavo acalmou depois desta situação durante uns tempos, mas voltou à carga.
Até que chegam as férias e decide partir juntamente com um grupo de conhecidos e amantes da natureza e fotografia para o país dos fiordes. Quinze dias de êxtase, quinze dias de partilha, quinze dias de deslumbramento. Até que, eis senão quando, vê alguém que lhe era familiar: uma colega do clube que costumava participar nas viagens, mas com quem Gustavo nunca teve oportunidade de conhecer melhor.
Quinze dias foram os suficientes para se gerar ali, entre os dois, uma cumplicidade e magia quase inexplicáveis.
De regresso a Portugal, a troca de contactos foi inevitável. A promessa de que iam continuar a amizade também.
À partida iria ser difícil ou não fosse ele de Lisboa e ela de Faro, mas com o passar do tempo, perceberam que nada é difícil quando se quer verdadeiramente.
Num fim-de-semana ia ela à capital, noutro ia ele até ao Algarve. Todo o tempo era de ouro, quando estavam juntos.
Claro que esta relação não era apenas de dois bons amigos. Formou-se ali uma paixão tão intensa que Gustavo, o Dom Juan lisboeta, rendeu-se e desistiu de ter todas as mulheres para ter apenas uma: Francisca.
Mas a tarefa mais complicada ainda o esperava. Ter de comunicar às “amigas” que não queria mais nada com elas não se avizinhava nada fácil. Umas aceitaram, outras desataram num pranto e houve uma que prometeu vingança.
O tempo passa e a felicidade está estampada no rosto de Gustavo.

E como ele me diz: “Rita, o amor, por vezes, está mesmo ao lado. Temos de aprender a ver”.

Será que é mesmo assim?

Um beijo

Rita

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