quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Diz-me


Diz-me o teu nome - agora, que perdi quase tudo,
um nome pode ser o princípio de alguma coisa.
Escreve-o na minha mão com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim."

Maria do Rosário Pedreira

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