
Para a história que se segue, não demorei apenas uns minutos como para a maioria dos textos que aqui estão.
Demorei talvez semanas... ou meses. Não sei, perdi-me no tempo.
É uma história real, vivida por alguém que tem o mundo à sua espera, mas que, por esta ou aquela razão, prefere viver ancorada no canto a que chama porto seguro.
Maria Ana, 25 anos, nascida e criada numa cidade pequena, pacata, perto do mar. Filha mais nova de uma família que não teve tempo para a abraçar, tocar ou beijar. Cabelos longos, macios como cetim, reflectem a luz do sol como de um espelho se tratasse. Os olhos, esses, eram grandes, com uma desmedida sede de partir para o que não se sabe que existe. O sorriso certo, mas inseguro mostrava que apesar da maioridade, Maria Ana, no fundo, ainda era uma criança. Uma menina num corpo de mulher. Mulher que esperava ansiosamente pelo dia em que iria crescer, sair e voar.
Maria Ana tinha uma relação de vários anos... 6 anos!!
O namorado, Carlos, era o namorado de sonho. Divertido, amigo, sincero, inteligente, cúmplice, dedicado, esforçado, lutador, meigo, quente.
Apesar de namorarem há uma imensidão de tempo, Maria Ana tinha decidido ir trabalhar para uma cidade desconhecida, a 600 quilómetros de casa.
Sim, era a primeira vez que saíra de casa. Sim, era a primeira que se aventurava pelas curvas desconhecidas da vida. E o mais curioso é que... sentia-se solta como nunca até então..
Maria Ana tinha uma vontade intrínseca de questionar tudo. Quase que me atrevo a dizer que seria a personificação feminina de Fernando Pessoa. Questionar a sua existência era uma tarefa árdua. Sempre que o fazia, a sua mente transformava-se num emaranhado de razões e particularmente de emoções. Apesar do bem-estar profissional, havia algo que a prendia ao ponto de sufocar-lhe a alma. Queria ganhar asas e voar, mas...
Mas... estava presa. Presa aos compromissos familiares, presa ao namorado, presa a si mesmo.
Nesta sua viagem em trabalho, conheceu uma rapariga que, mais tarde, viria a ser uma amiga. Inês, 29 anos, escritora e fotógrafa nas horas livres, pensadora nos instantes ocupados.
Maria Ana mergulhava horas e horas em diálogos com Inês. A troca de sentidos era diária. Inês fez emergir em Maria Ana todas as suas dúvidas, receios, sonhos e anseios. Inês era uma provocadora por natureza e abanou Maria Ana ao ponto de acordá-la de uma inércia que durara anos e anos.
Inês tinha uma forma de ver o mundo muito parecida à de Maria Ana. Mais madura, calejada, sofrida, vivida falava das tormentas da vida como se assistisse a um concerto de Billy Joel.
Maria Ana sabia, cada vez mais, o que não queria para a sua vida. Sabia que não podia viver mais numa peça de teatro que não tinha sido escrita por ela.
Porém, tentava anestesiar o espírito com o embriagante tónico da ilusão.
A ilusão é, talvez, o maior e melhor inimigo do ser humano. Saborosa, doce e viciante!
A desilusão, por sua vez, era sinónima de ressaca. Dura, difícil e dolorosa!!
O tempo urge. A ilusão mantém-se.
Não sei se um dia Maria Ana vai finalmente escolher o caminho mais tenebroso. Não sei se quererá ficar cheia de hematomas e flictenas na alma. Não sei se irá optar viver o incerto e inseguro.
Mas sei que, se for essa a sua escolha, terá Inês ao seu lado.
Há muitas Maria Anas por esse mundo fora. Há umas que, chegam ao fim da vida, olham para trás e recordam tudo o que viveram com um sorriso no rosto. Outras, recordam o que não viveram com uma lágrima no olho.
Viver ou não viver depende apenas e somente de cada um de nós.
Um beijo
Rita
É o desejo de viver tudo, experienciar tudo...
ResponderEliminarAlguém uma vez disse: "quem tudo quer tudo perde", será esse o medo rita?!
Será a Maria Ana uma "guardadora de rebanhos" silênciada pelo receio? Vê-se Caeiro como um poeta ingênuo, que procurava viver as coisas como elas se apresentavam... Maria Ana tem essa tendência, parece-me...
Ou será ela "um poeta fingidor"
Percorrer o trilho da vida pode por vezes… levar-nos ao precipício e à indecisão… compreendo como ninguém Maria Ana, e o sentimento libertador que a estrada nos proporciona. Contudo convêm lembrar à nossa “personificação feminina de Fernando Pessoa” que saber o que não quer para a vida, é já por si, meio caminho andado para saber aquilo que se julga querer. Como também é meio caminho nos levar invariavelmente em direcção ao trilho da errância.
ResponderEliminarTenho dito…