segunda-feira, 18 de julho de 2011

Canção do Engate


Para escrever este texto comecei por googlar o significado de engate. E qual não é o meu espanto que engate é o acto de engatar e o que raio quer isto dizer?! Eu traduzo.
Engatar é ao fim ao cabo uma conquista amorosa a que não se dá grande importância, ou seja, é uma procura que é feita com o intuito de ter uma relação íntima, porém de curta duração.
Voltando a traduzir… É o dom de conseguir o que se quer num curto espaço de tempo, sexualmente falando, claro.
Aqui há uns dias meti-me sozinha numa discoteca e fui apreciar a arte de engatar. Não foi premeditado, mas tinha saído de uma festa de aniversário e apesar de tarde não me apetecia ir para casa. E foi então que parei em X sítio e desde logo, no parque de estacionamento, senti-me observada por 3 pares de olhos.
Antes de mais, uma coisa é certa. Homens e mulheres comportam-se de diferentes modos em muitíssimas coisas e no engate a distinção é abismal.
Bem, mas começando pelo início.
Fui a uma discoteca em que nunca tinha entrado, pelo que me era, de todo, estranha. Não conhecia os cantos à casa, o tipo de pessoas que frequentava o espaço, as pessoas que lá trabalhavam… Enfim, quase que posso dizer que foi um Blind Access.
À porta, dois senhores apresentavam-se vestidos de preto. Um com quase dois metros de altura e uma compleição assustadora fez-me sentir uma formiguinha no reino dos elefantes. O outro, esse, já da minha altura fez-me sentir, naturalmente, muito mais à vontade.
Cheguei e disse-lhes: Boa noite.
O mais pequeno retribui, o elefante deve ter retorquido qualquer coisa, no entanto, não percebi o quê, e deu-me um cartão. Até aqui, tudo muito bem. Nada de novo.
Entro para aquilo que normalmente chamo de hall, ou coisa que o valha, e o pequenote vira-se para mim e pergunta: Não se importa de abrir a mala?
- A mala?? Disse eu.
Mas o que poderá ter a minha mala de tão apelativo a este sujeito, pensei. Um batom? O blush? O multibanco? Já sei!!!! O cartão de crédito? Azar o dele, não uso!!! E foi quando o motor de arranque deu sinal e reflecti. Claro, Rita, então, tu tens um ar de terrorista e pelo teu tom de pele, poderás ser da al-Qaeda ou dessas bandas. Vá, mostra lá as bombinhas de mau cheiro ou os estalinhos de pólvora que em pequena tanto usaste, quando chegava o Carnaval.
Lá abri a mala e o senhor lá passou com um objecto fálico não identificado. Não apitou. Deduzi que seria bom sinal.
- Pode seguir. Disse o pequenino.
Ao que eu, educadamente e com um sorriso maroto (ou não me conhecesse de ginjeira) agradeci.
E lá entrei eu, num universo completamente misterioso. A música zumbava. Não me recordo o quê, mas sei que não gostava e na pista viam-se casais a dançar. Uns bem agarrados, outros nem tanto.
Olhei ao meu redor para me inteirar do espaço, da decoração, das pessoas e dos detalhes. E eis senão quando a senhora que estava no bar me chama.
-És nova aqui, não és?? Pergunta-me ela.
-Nota-se assim tanto? Perguntei com um sorriso cúmplice antes de lhe pedir um licor Beirão com muito gelo.
E assim foi. De copo na mão lá fui percorrendo os meandros de todo aquele cosmos.
Vi muitos homens e mulheres. Elas em grupo de duas ou mais. Eles, sozinhos!
A faixa etária era ampla. Mas se tivesse que fazer uma média, diria aí os 40/45 anos. Curiosamente uma idade em que se verifica, cada vez mais, um maior número de divórcios. Terá alguma correlação?!Hummm, talvez, talvez.
Mas o mais giro foi ver o modus operandi delas e deles.
As mulheres estavam todas sentadas a uma mesa. Como já referi, todas elas se apresentavam em grupo. Não havia nenhuma mulher sozinha. Minto. Havia apenas uma: eu.
Os homens permaneciam junto ao balcão do bar, alguns apoiados com o cotovelo no mesmo, outros de copo na mão e com a outra mão no bolso. Pelo que pude espiar, na sua maioria era a mão direita que agarrava o copo e a esquerda no bolso. Será algum sinal?! Se sim, desconheço.
Algumas mulheres mexiam no cabelo ou ajeitavam a roupa e sorriam umas para as outras. Os homens, esses, permaneciam com um ar sério, como que a mirar qual seria a próxima vítima.
Como já perceberam, havia uma distância relativa entre os dois sexos. Então, como raio faziam eles para se convidarem a dançar?
Simples.
Primeiro, quem convida, sempre, é o homem. E tem duas formas de faze-lo: ou faz um gesto com a cabeça em direcção à mulher pretendida ou então aproxima-se dela e pergunta se quer dançar. Duvido é que elas oiçam alguma coisa ou não fosse o volume da música estar acima dos muitos e muitos decibéis. Mas o que é que isto interessa? Nada!!! Elas queriam era que eles se arroxeassem a elas. Eles até podiam estar a perguntar-lhes se elas queriam ir dar uma voltinha até lá fora. Elas simplesmente não percebiam.
E com isto começa o ritual da dança. Dependendo da melodia e do que elas permitirem, dançam com uma maior ou menor proximidade. Há os que abusam ao tentar um achegamento estúpido e porcamente mal disfarçado, mostrando desespero, mas aí, há as que põem os pontos nos i’s para além de um travão. Pelo que notei, é a mão esquerda que fica no ombro do homem, que evita que ele se aproxime. E há as que estavam mortinhas para que aquilo acontecesse e permitem que a colagem corpo a corpo impere.
Fantástico não é?! A dança é algo que, para além de muito sensual, é claramente sexual. É um ritual onde as feromonas falam e deixam falar por si.
Há quem pense que nesta selva é o macho que tem o poder de escolha. Eu nesta simples pesquisa, constatei o contrário. Quem decide se sim, se não é a mulher. Por sua vez, eles, se não dançam com A, dançam com B. A exigência não deve ser factor preponderante. O que importa sim é uma companhia, um corpo feminino perto, alguém que os faça esquecer o ontem e faça planear o daqui a pouco. Já elas… Elas não procuram sexo. Pelo menos numa primeira abordagem. Procuram um amigo, alguém que as oiça, já que o marido (se forem casadas!!) não tem tempo ou vontade para ouvir o que elas precisam dizer, alguém que as compreenda e que não as critique. Querem esquecer os problemas com os filhos, maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados, com os bancos. Se o homem passar com distinção nessa primeira fase, então acredito que poderá, realmente, haver uma base sólida para, quem sabe, uma amizade colorida.

As relações humanas, especialmente homens-mulheres já foram estudadas por muitos investigadores.
Mas por mais que descubram, por mais que investiguem, a magia está mesmo em tentar desvendar cada detalhe de cada movimento.
Sim, é interessante entender as coisas. Ou não tivesse eu tantos livros sobre o assunto e não quisesse fazer o doutoramento na área, mas defendo que depois de se entender, ou de se pensar que percebeu, devemos desfrutar das relações como elas são. Sem explicações, percepções ou observações.

2 comentários:

  1. estou a ver que andas dedicada ao estudo das relações humanas. Olha que é ums espécie com muitas surpresas :)

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  2. Olha quem é ele.. :p
    Como estás, Gonçalo?
    Ando dedicada ao estuda da coisa, sim.
    Uma espécie com muitas surpresas, porém a um primeiro nível é tudo muito básico e previsível.

    Um beijo
    Rita

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