sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Insomnia


Mensagem recebida de: Lúcia
"Mas onde é que tu andas que ninguém te mete a vista em cima?!!".
Rita pousou o telemóvel sem responder à amiga.
Passado algum tempo, resolveu actualizar as respostas que tinha em atraso (coisa rara na sua pessoa), uma vez que sempre que pode e quer, responde de imediato.
"Pindérica, o frio já chegou e resolvi hibernar!:)" Mensagem enviada e entregue a Lúcia.
"Olha, tu deixa-te é de coisas e vamos mas é jantar e por a conversa em dia!"- Responde a amiga.
A conversa em dia?!!!Mas ainda na semana passada estive com ela e passámos horas à conversa. O que raio quer ela actualizar?!!Pensou Rita.
As mulheres têm este hábito. Podem ver-se todos os dias, conversar a toda a santa hora, mas há sempre assunto pronto a ser actualizado.
"Não sou boa companhia. É melhor adiarmos para outro dia". Envia Rita.
"Mas estás parva???!!!És sempre boa companhia!E não aceito um não. Daqui a uma hora estou à tua porta!"- Reivindica a amiga.
E assim foi. A noite amedrontava chover e o frio que se fazia sentir, notificava que o Inverno estava a chegar.
O restaurante escolhido por Rita não poderia ser outro, ou não fosse este o seu eleito. Uma tasca super afável, com comida excelente e funcionários muitissimo agradáveis.
Depois de Lúcia querer saber todos os detalhes da última semana da amiga, nomeadamente, pormenores sórdidos de como é feita uma biopsia, onde picam, onde tiram, (etc), virou-se com o copo de vinho na mão e perguntou a Rita:
-Então e agora?!
-Agora?!Agora é esperar.
A espera por algo deve ser das piores coisas que existem na vida. Se essa espera for por algo bom, a ansiedade manifesta-se de uma forma tolamente divergente de quando se aguarda o remate de algo tão frágil como a nossa saúde.
-Mas escuta lá, o que é que se passa mais?! Lúcia percebia que algo mais apoquentava a amiga.
-Hum?Nada, não se passa mais nada. Sorri-lhe Rita.
-Queres enganar quem, Maria Rita?Tu não me digas que...
-Que o quê?!
-Que estás assim por causa de um alguém, cujo nome é...
-Não, claro que não!Que parvoíce. Respondeu Rita sem deixar que ela finalizasse a frase.
-Catita, está na hora de mudares de carruagem!!!Essa já está cheia de ferrugem e com o tempo vai apodrecer!!!!Há quanto tempo não falas com ele?
-Falar há um tempão. Meses!! Mas ele mandou-me um SMS ontem. Revelou Rita.
-E deixa-me adivinhar, respondeste-lhe?!Pergunta Lúcia.
-Óbvio!!!Ia deixar um desejo reprimido dar cabo de mim, queres ver?!Oh Lúcia, não sou de ferro e bolas, ainda não o consegui esquecer.
A verdade, essa salteadora cruel, é que o tempo passara e a distância aumentara, mas Rita ainda não o tinha conseguido esquecer.
Esquecer talvez não seja o verbo mais honesto, pois não se esquece. Quanto muito, deixa-se de pensar com tanta intensidade, sentimento, vontade, brilho, consciência e tudo o mais.
-Miúda, a vida continua. E a esta hora ele já nem se lembra que tu existes.
A frieza das palavras de Lúcia chegaram onde tinham de chegar, porém não foram suficientes.
-O que me interessa a mim que ele me tenha esquecido, se eu, Lúcia, se eu não o consigo tirar de mim?!!
-Epá, oh Rita, mas o que é que esse tipo tem afinal??
-Não sei!!!
As duas riram-se que nem umas extraviadas.
A resposta foi a mais elementar e breve que podia existir, mas não foi a correcta.
Rita sabia e tinha a perfeita percepção daquilo que ele tinha e que tanto lhe fazia titilações na alma, ajudando-a a passar as noites em branco.
Apesar de crescida e de saber que paixonetas são como o vento, estava ciente que isto ia levar mais tempo que o habitual, mas (e quando as coisas têm fim, há sempre um “Mas”) como diz o povo: "longe da vista, longe do coração", não é assim?!

Um beijo

Rita

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