-Estou sim, doutora?-Sim, sim, sou eu.
-Olá, como está? Daqui é a Amélia, da clínica. É só para lhe dizer que na quinta feira tem três consultas marcadas.
-Ok, Amélia. Apontou as idades?
-Claro doutora. Uma criança de sete anos, um senhor de cinquenta e dois e uma senhora com trinta e quatro.
-Amélia, já lhe disse para me tratar pelo nome. Vou começar a cobrar-lhe. Muito obrigada pela atenção. Quinta aí estarei. E desligo.
Uma conversa similar a esta repete-se todas as semanas. Nada a salientar, à partida.
No dia marcado, meia hora antes da primeira consulta, entro na clínica e vou para um espaço que foi formatado para um gabinete médico e não para o momento que ia ter daí a trinta minutos. Sentei-me e pensei o que poderia levar pessoas com idades tão diferentes a ter uma consulta desta especialidade. Não cheguei a conclusão alguma, como sempre.
Olho para o relógio. 16h30. Dirigi-me à sala de espera e olho em redor.
Uma senhora com os seus trinta e muitos aguarda na cadeira junto às revistas. Mala sobre as pernas, olhava através da janela. Algo captava a sua atenção lá fora, pensei.
- Ana?Perguntei.
- Sim, sou eu. Responde-me uma boca com lábios muito secos.
- Boa tarde, vamos entrar?
- Sim, doutora. Claro.
Ana entra no gabinete à minha frente e notou-se o pouco à vontade que o seu comportamento murmurava.
- Pode sentar-se, por favor. Esteja à vontade. Disse eu para quebrar um pouco o gelo, enquanto lhe dou tempo para colocar a mala na cadeira e o casaco no cabide.
Finalmente senta-se. E eu sento-me também. Reparo que o espaço está frio.
- Ana, é melhor ligar o A.C., não acha? Se não, daqui a pouco estamos congeladas. Digo eu com um sorriso.
É incrível como passamos tanto tempo a falar dele mesmo, do tempo. Ora está frio e queixamo-nos, ora está quente e não dizemos outra coisa, ora está assim assim e refilamos, ora está assim assado e criticamos. Enfim.
- Pois, de facto é melhor ligar, sim. Diz-me ela.
Sento-me novamente e olho para a mulher que está ali. Como parece tão mais velha, pensei. Olheiras vincadas e de tom acastanhado contavam uma história velha de insónias.
- Então, diga-me, Ana. Em que posso ajudar? Questiono.
O silêncio faz-se sentir.
Para principiantes este é, talvez, um dos piores momentos das sessões. Não sabemos o que dizer, onde por as mãos, para onde olhar, não sabemos lidar com aquele momento angustiante, que duplamente se sente. O paciente e nós.
Tentei perceber se a Ana precisava de um empurrão ou se precisava mesmo de tempo e noto que se mostra desconfortável.
- Ana, leve o tempo que precisar. Temos todo o tempo do mundo.
10, 20, 30, 50 segundos passam e o silêncio continua.
1, 2 minutos e aquilo que era um espaço que parecia uma igreja vazia transformou-se
num pranto.
A mulher chorava intensamente e só depois de lhe estender os kleenex é que ela começa a acalmar-se.
- Desculpe doutora. Diz ela.
- Ana, não tem de pedir desculpa. Quando se sentir preparada, conversamos.
- Eu nunca imaginei que viesse a precisar de uma consulta deste género. E admito que sempre pensei que isto fosse para os maluquinhos. Desde pequena que penso isto. E agora que sou eu a precisar, vejo que estava errada estes anos todos.
- E como se sente agora que percebeu que estava errada? Pergunto.
- Ai, sinto-me injusta e uma burra.
- Ana, acha que nós tendemos a rejeitar e a por de lado o que não conhecemos?
Silêncio.
- Sim, é que é mesmo isso. Nós quando não conhecemos, dizemos logo mal. Nem damos uma oportunidade para conhecer primeiro e depois tirar as nossas próprias conclusões.
E agora que penso nisto, acho que... acho que nunca conheci o meu marido.
Nesse momento, percebi que o motivo da consulta seria algo relacionado com o marido. Mas o que terá acontecido para provocar todo aquele sofrimento, pensei.
- Fale-me do seu marido.
- Falo dele? Mas o que quer saber? Diz-me.
- Bom, imagine que mo quer apresentar sem ele estar presente. O que me diria acerca dele?
- Hummm. Sabe o que é o homem perfeito?
- Não, Ana. Fale-me um pouco do homem perfeito.
- Bem, o meu marido é, para mim, o homem perfeito. Alto, bem constituído, olhos azuis, cabelos acastanhados, inteligente, trabalhador, charmoso... Trabalha tanto, ele!!!Às vezes são 23 horas e ele no escritório. Faz tudo para que não nos falte nada. - Não podia ter encontrado melhor.
Retive a informação mais importante de todo aquele cenário idílico.
- Sabe, doutora? Eu estou aqui não é por ele. A culpa é minha. Toda minha.
- Culpa, Ana? Explique-me melhor.
As coisas continuavam ainda enevoadas. Ok, algo se passava. Ok, esse algo estava relacionado com o marido. Ok, à partida parece um marido muito pouco presente no dia-a-dia. Ok, havia, pelo menos, um filho.
- Isto é assim... Eu fui mãe de gémeos há quatro meses e durante a gravidez engordei muito. Foram 25 quilos, doutora. - E agora, vejo-me ao espelho e não gosto do que vejo. Se eu não gosto, muito menos gosta o meu marido.
- Acha que isso o incomoda? Questiono.
- Tenho a certeza. Ele diz-me muitas vezes que estou gorda, que pareço uma baleia, que estou descuidada.
- Ana, quatro meses de recuperação para uma gravidez de gémeos é muito pouco tempo.
- Pois é, doutora. Mas acha que os homens entendem isso?
- O que acha, Ana?
- Não, não entendem. Não são eles que engordam, não são eles que têm as dores, não são eles que são cosidos em zonas delicadas, não são eles que sofrem alterações hormonais, não ganham estrias. Os homens continuam perfeitos como até então.
Denotei ali uma auto-estima pela rua da amargura.
- Continuam perfeitos? E essa perfeição o que é?
- Dos genes que Deus lhe deu. É da natureza dele. Quero dizer, ele também faz ginásio e BTT. - Sabe, eu em tempos também fui perfeita. Tinha um corpinho invejável quando o Nuno me conheceu. Mas agora mais pareço um saco de batatas.
E começou novamente a chorar.
(...)
Esta foi a primeira de muitas conversas.
O marido de Ana era o homem perfeito, porém criticava-a constantemente, fazia o favor de lembrar diariamente a mulher que estava desfigurada, que tinha vergonha de sair com ela, que evitava fazer amor porque não conseguia ter prazer algum.
Ana, por sua vez, prometeu-lhe fazer dieta. Fez a dieta da lua, dieta da sopa, dieta proteica, dieta das marés, dieta da seiva e sei lá mais qual. Tomou medicação para reduzir o apetite. Jurou que ia fazer ginástica todos os dias e que ia voltar ao que era, mas Nuno não acreditou e pior, não deu tempo à mulher, para, em conjunto, construírem uma relação que estava confinada a uns alicerces de madeira banhados em água salgada.
Depois de algumas sessões, Ana percebe que não tem de tomar medicação para emagrecer, percebe que não tem de fazer dietas malucas para perder 20 quilos num mês, percebe que pode continuar a ser uma mulher interessante, inteligente, divertida mesmo com vinte quilos a mais. E percebe também que pode ir perdendo peso sem pressões exteriores, sem stresses.
E percebeu, que, afinal, estava melhor sem aquele marido.
Estas foram as suas conclusões.
Depois de se arrumar a ela própria, começou a arrumar os sentimentos que tinha por um homem que só se amava a ele próprio.
Passado um ano, Ana pediu-lhe o divórcio, mudou para um T2 e deixou o BMW que o marido lhe comprara e era, finalmente, feliz.
Anas há muitas. Quantas conseguirão ter uma atitude como a personagem da história?
E quantas serão felizes?
Outstanding quest there. What happened after? Thanks!
ResponderEliminarMy webpage - Xarope De Seiva