Já não sei há quanto tempo não vinha a este espaço, mas a verdade é que não precisei. Não senti necessidade de escrever ou ler algumas parvoíces que escrevi no passado.
Hoje foi excepção... Em tudo existe uma excepção à regra e aqui não foi diferente.
Não sei por onde começar, mas a verdade é que preciso que as palavras escorram que nem lágrimas. Lágrimas que secaram. Lágrimas que deixaram de existir.
O trabalho no hospital ajudou-me (ou não!!) a ficar assim. Lidar diariamente com situações delicadas, ver os familiares dos doentes a chorar e não poder chorar com eles, sentir o sofrimento nos corpos, nas almas é algo que não tem explicação.
Até que hoje, uma velhinha de 91 anos me disse, entre lágrimas, que precisava de ir para casa depressa porque o marido, um senhor de 95 anos, estava sozinho e precisava da ajuda dela.
Estão casados há 70 anos e nunca se tinham separado.
Foi quando senti os meus olhos embaciados e na carícia que lhe fiz no rosto, uma lágrima cai sobre a almofada.
Eu, que cada vez sei menos desta vida, pensei se aquilo que estava diante de mim era amor. Não, não podia ser, pensei. O amor não existe. Pode existir algo mascarado, idêntico a, que se confunde fácil e instantaneamente com, mas amor, amor não há.
Até que a senhora acrescenta... "Deus não me pode levar ainda... O meu João (nome fictício) precisa de mim".
Outra facada no coração. Quase que senti a lâmina a esfarelar as minhas convicções.
A verdade é que foi preciso ir trabalhar para um local destes para andar a bater com a cabeça nas paredes, quase diariamente, e perceber que porra, o amor existe. E pode durar uma vida, ou quem sabe, ir para além desta.
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