quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Obra de arte ou arte de amar?


Vicente, um homem nos seus quarenta e seis anos, vivia das suas mãos. Era pintor e nunca fizera outra coisa a não ser dar movimento aos pincéis.
Em miúdo, tinha guerras acesas com seus pais quando devia estudar e fazer os deveres da escola. Na verdade, ele vivia pintura! Até as suas brincadeiras eram ao redor de tinta e na ausência de material, usava as suas próprias mãos. Era mais que suficiente para criar qualquer coisa sublime.
Os seus pais incentivaram-no a estudar medicina, mas Vicente com a sua dose de rebeldia decidiu terminar o 12º ano e partir.
E assim foi.
Conseguiu dinheiro na venda de alguns quadros e partiu sem pensar duas vezes.
Sem endereço, sem rumo chegou a Bruges e ao sentir todo aquela vida medieval, decidiu ficar por lá uns dias. Mal ele sabia que esses dias iriam ser anos!
Vicente começou a pintar num estamine improvisado na Praça Huidenvetterspelin, local predilecto dos pintores que ali se encontravam.
Bastaram duas semanas para Vicente viver aquele reboliço diário da cidade e perceber que era ali que queria acabar os seus dias.
Era um homem novo, porém as rugas vincadas da sua face faziam com que parecesse ter mais idade.
A vida deixa sempre as suas marcas e as de Vicente estavam tatuadas no rosto e na alma.
Há 15 anos atrás Vicente sofreu um desgosto de amor. E foi de tal forma intenso que andou moribundo uns meses ao ponto de renegar a pintura, o seu grande e verdadeiro amor.
A causadora de tamanho sofrimento, era uma jovem de vinte e poucos anos. Sofia era o seu nome.
Era uma típica mulher da sua idade. Jovem, sorridente, sonhadora, irreverente, ambiciosa. Por vezes esta ambição era de tal forma desmedida que não olhava a quem para atingir os seus fins.
Queria brilhar nas passadeiras da vida. Queria ser famosa e acarinhada pelo povo.
Na verdade, o que queria mesmo era ser amada.
Sofia cresceu num seio de uma família austera, fria e nunca soube o que era um carinho ou uma simples história de boa noite. E talvez por isso procurasse tanto no vedetismo aquilo que nunca tivera.
Num qualquer dia de Agosto, ia distraída na rua quando esbarrou com Vicente.
As resmas de livros que ele levava nos braços foram todos parar ao chão.
- Oh, meu Deus. Desculpe senhor!!Diz Sofia.
- Anda a dormir ou quê?
- Ando!!!Mais, ando a sonhar acordada!!Tem algum problema com isso?
- Não, desde que não se atire a mim e tenha a habilidade de atirar com tudo o que levo ao chão!Responde Vicente.
- Olhe, já lhe pedi desculpa não já?!!
Vicente não respondeu. Estava ocupado demais a apanhar as suas obras literárias mas quando se levanta e consegue vislumbrar Sofia… bom, quase que deita tudo ao chão novamente.
Vicente ficou anestesiado com a beleza da jovem. Aos seus olhos, esta parecia-lhe um anjo encarnado em corpo de mulher.
A pele imaculada, os cabelos encaracolados e olhos com umas pestanas de brindar os céus deixaram-no perplexo.
- Sente-se bem?Pergunta Sofia.
- Hum???Como?Vicente não percebera o que ela lhe dissera.
- Bem, parece que agora quem está a dormir não sou eu!!Ironiza Sofia.
Quando Vicente saiu do estado catatónico em que se encontrara, tomou a liberdade e coragem de convidá-la para um café.
O dia estava quente e as esplanadas na Baixa eram um local apelativo.
Após uns dedos de conversa e dois cafés tomados por Vicente e um sumo por Sofia, eis que o pintor, atordoado com o efeito da cafeína que lhe voava nas veias, decide ter a ousadia de perguntar:
-Sofia, gostaria que pousasse para mim. Aceita este meu convite?
A jovem riu-se. Ao mesmo tempo que o riso denunciava o seu nervosismo, a sua face também a denunciou. Começou a ruborizar de tal forma que nem uma Capsicum L. (vulgo malagueta) a conseguia ganhar no pigmento.
Combinaram encontrar-se naquela mesma esplanada no dia seguinte pelas 11 horas.
Vicente não dormira nessa noite. A ansiedade de pintar um anjo fizera com que a noite fosse dar uma volta e quem quase ir dar uma volta também era o seu coração. De tanto bater. Um bater acelerado, forte. Um movimento de tal forma anormal que parecia que ia romper peito fora.
O dia nascera… um dia lindo de sol. Eram 10h23 e Vicente já esperava impaciente por Sofia no local combinado.
-Olá Vicente, bom dia. Sorriu Sofia.
-Sofia, pensei que já não viesse.
-Desculpe o meu atraso, mas… fiquei na dúvida se deveria fazer isto.
-Confie em mim. Só quero passar a sua beleza para uma tela. Ou pelo menos tentar.
Depois da jovem se sentir mais confiante foram para casa de Vicente. Uma pequena casa com um quarto, uma sala, cozinha e casa de banho. A casa era o mais parecido que pode haver com o caos.
Espalhados pelo chão haviam tintas, pincéis, salpicos. Nas paredes, um sem número de quadros encostados.
Era na desordem que Vicente encontrava a sua ordem, por isso, não se preocupava minimamente em organizar aquilo que para ele estava mais que ordenado.
Da casa, havia um canto particularmente bonito. O quarto!
Este, à partida, nada tinha de especial, contudo a luz que nele entrava através dum cortinado azul, projectava-se nas paredes de uma forma mágica.
E foi aí, nesse recanto, que pintou Sofia.
Antes do grande momento, beberam ambos um copo de vinho tinto. Estavam a precisar da ajuda do relaxante favorito de Baco!!!!
Depois de umas risadas que ajudaram a criar o ambiente perfeito para o momento, Vicente retirou-se do quarto e deixou Sofia à vontade. Esta por sua vez, despiu-se lentamente, deitou-se sobre a cama e fechou os olhos.
Estava serena. Tão serena que conseguiu transmitir para as mãos de Vicente a mesma tranquilidade.
Quando Vicente entrou no quarto, ficou, mais uma vez, pasmado. Não queria acreditar no que vira à sua frente: a beleza personificada num corpo.
(…)
Sofia e Vicente, nunca mais se viram desde então. Ou por vontade própria ou por culpa dos trilhos que cruzamos, o contacto entre os dois perdera-se ali. Todavia ficara imortalizado para todo o sempre.
Hoje, Vicente não sabe explicar o que viveu. Se foi amor. Se foi paixão. Se foi um amor platónico ou se foi tudo uma ilusão.
Sabe que, no fundo do turbilhão de sentimentos, pintou o mais belo quadro que alguma vez poderia pintar.

Não sei se, um dia, estes dois não se irão encontrar, num qualquer acaso, desses que a vida, por vezes, nos prega.
Sei que, se isso acontecer, virei cá para vos contar.

Um beijo
Rita

Nota- Quero agradecer a gentileza e o carinho de um grande profissional da arte de fotografar que me cedeu a fotografia em questão.
Poderão ver a sua obra em http://aleo-photo.org
Aleo, um grande beijinho para ti

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