
Anteontem de madrugada, morreu-me uma pessoa de família.
Sem que ninguém fizesse prever, ela chegou sem bater à porta e em breves segundos, levou-o.
O corpo quente deitado na cama, fazia com que parecesse estar a repousar. Um sono profundo, sossegado, pacífico. Era assim que o conseguia ver e sentir.
O saber que nunca mais o voltaria a ver rir, brincar, dançar, discutir deixou-me eterizada. Senti-me a metamorfosear num robot, onde a única coisa que existe são pensamentos mecanizados e gestos ainda mais racionais.
Deixei de ouvir o choro que ecoava nas paredes altas da casa.
Delicadamente, fechei a porta do quarto. E ali estava eu. Eu e ele.
As primeiras lágrimas caíram-me sem que esperasse. Sentei-me na cama, junto dele, como tantas vezes o fizera. Deixei passar algum tempo. Não sei precisar quanto. As horas pareciam voar sem que desse por elas.
O intervalo post mortem aumentava. E eu, tinha de fazer algo que não podia ser mais adiado. Ganhei forças. Onde? Não sei. Mas, também prefiro não saber. Lavei-o, vesti-lhe o mais belo fato que tinha no guarda-vestidos, penteei-o e coloquei-lhe umas gotas do seu perfume preferido.
Estava lindo! Lembro-me que o último dia que o vira assim, todo “empapoilado”, foi na passagem de ano de 2008 para 2009. Nessa noite, a excitação e alegria corriam-lhe nas veias. Queria ir dançar até amanhecer, dizia-me.
Depois daquele momento, fiquei mais um tempo. Em silêncio e a olhar para o indefinido rebobinei a cassete da minha história com ele. Carreguei no Play e (revi) vi... Cena a cena dos momentos passados.
Lembro-me de ter ido embora já de madrugada. Sei que passei por uns homens que fumavam à porta das padarias. Eram padeiros, pensei. Mais um dia de trabalho que começara!
Cheguei a casa, liguei o computador para escrever o que estava a sentir. As palavras não me saíam dos dedos. Minto, as palavras não me saíam da alma. Não saíam, porque, simplesmente, não estavam lá. A minha alma estava vazia.
Foi então que decidi ir para a cama numa tentativa irritante de adormecer e esquecer. Iludir a verdade é algo que tem sempre uma consequência contrária do que queremos.
Claro que não consegui dormir e os pontos de interrogação que zuniam na mente, fizeram-me perceber que há perguntas para as quais nunca existiram, não existem e jamais existirão repostas.
Resta esperar.
Esperar que o tempo transforme a dor que se sente sem sentir em saudade.
Esperarei então.
Até sempre Henrique.
Um beijo
Rita
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