
Há muitos e muitos anos junto à praia do Desejo havia um casarão que pertencia à Monarquia.
Era uma casa de férias, onde a família DeGaulles ia todos os Verões, composta por dez quartos, três salas, seis quartos de banho e um telheiro que circundava a casa com vista para o mar. Quem a visse pensaria que os meses de Verão seriam uma balburdia naquela mansão, cheia de gente vinda de longe só para viver os meses de praia.
Mas não! A família DeGaulles estava reduzida a quatros pessoas: pai, mãe, filha e filho. Os tios, tias, avós, primos tinham morrido. Parece que algo assombrava a família de descendência francesa.
O patriarca, Antony DeGaulle tinha 47 anos e um dos mais ricos barões de Portugal. As suas responsabilidades eram muitas, contudo a sua verdadeira preocupação era a filha. Mas falarei nisso mais à frente.
A mãe, Patrice DeGaulle, era a típica mulher do século que então se vivia. Submissa, responsável, preocupada em manter a casa na ordem e uma família, aparentemente, feliz.
A filha, Marie era uma adolescente a entrar na adultez. Tinha 20 anos e era uma força da natureza. Alegre, cantarolava pela imensidão do silêncio nos infinitos corredores da casa de praia. Rebelde, queria partir pelo mundo. Conhecer pessoas, cheiros, locais, cores que jamais pensaria existir era o seu grande sonho. Os seus dias eram ocupados entre a secura da escola Inglesa e os momentos de pintura e escrita onde se sentia verdadeiramente livre. Talvez por isso gostasse tanto de ir para aquela casa. Lá podia dançar, cantar, rir, pintar ou até mesmo chorar sem que ninguém lhe cobrasse por isso. Mas tinha um outro motivo que a fazia sentir a pessoa mais feliz do mundo aquando as férias de Verão. Motivo esse que permanecia no segredo dos deuses.
Marie era a verdadeira preocupação da família, em especial do pai, uma vez que se recusara casar com um príncipe qualquer sem sal. Chegara mesmo a fugir de casa quando seus pais quiseram anunciar o noivado, perante 300 pessoas do meio.
Foi a vergonha do ano. O acontecimento era comentado por toda a gente e servia de tema de conversa em qualquer salão de chá.
-Marie, onde vai?Pergunta o pai, numa das noites mais quentes do mês de Julho.
-Papá, vou passear. Não me demoro, fique descansado.
Marie estava ansiosa para voltar ao seu porto de abrigo: a praia do Desejo.
A praia era, de facto, bela. E se a tentasse descrever, estaria a perder tempo, porque simplesmente não há palavras que digam o quão mágica é aquela areia, aquele mar. É todo um misto. O cheiro, a temperatura, o bater das ondas nas rochas...
Porém, a excitação de Marie não se devia apenas à praia. Algo a esperava.
Cansada de correr, chega e fica gelada. As suas mãos tremiam, o seu coração voava e os seus olhos, esses começaram a chorar. De alegria, claro!
Aquele que seria, desde há seis anos, o seu grande amor estava ali, mesmo à sua frente. Não se viam desde o Verão passado e as saudades falavam por si.
Estiveram sem se tocar uma infinidade de tempo. Olharam-se, sentiram o cheiro um do outro e amaram-se só com o poder do olhar.
-Querida... És... Linda!!!!!
Marie não aguentou. Entregou-se nos braços de Pedro e o amor falou pelos dois.
O que os unia era qualquer coisa de extraordinário. Simples, mas intenso. Era daquelas coisas que, a meu ver, deixou de existir há muito tempo. Ou talvez não!
Marie e Pedro estavam juntos três meses por ano e durante os restantes esperavam, contando cada segundo para o reencontro.
Esta era uma relação proibida ou não fosse Pedro um mero pescador da aldeia de Santa Filomena.
Mas os dois estavam dispostos a tudo para ficarem juntos, até que a morte os separasse.
-MARIE!!!!!!!!!!Grita o pai, mal ela entra em casa.Isto são horas de chegar?????
-Pai... adormeci na praia e perdi as horas. Desculpe!
-Estiveste com ele não foi?????!!!!Pergunta o pai, irritado.
Reinou o silêncio.
-Fique sabendo que está de castigo até irmos embora!Não sai do seu quarto enquanto não lhe der permissão.Percebido?
-Mas papá...
-Não há papá nem meio papá!Suba e vá se deitar!
Marie correu para o seu quarto lavada em lágrimas. A ideia de não ver Pedro nos restantes dias parecia-lhe o fim do mundo.
(...)
O que terá acontecido a Marie?
E Pedro, como terá reagido à ausência da sua amada?
E o amor??O amor que, supostamente, os unia?Irá manter-se vivo?
Por mais perguntas que faça, as respostas ainda não as sei.
Talvez desconfie, mas certezas, certezas só com o tempo.
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