segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Por entre teclados


Esta é uma história que se funde com a de tantas outras pessoas.
É um conto real e imaginário onde as curvas e contracurvas da vida se cruzam numa linha recta que parece não ter fim.

Ela crescera com os avós e nada lhe faltava. Sempre tivera tudo o que desejava e nem mesmo o facto de ter crescido sem pai a poupava de ver realizados os seus caprichos.
A mãe, Joana, tinha sido deixada pelo namorado quando este soube que ela estava grávida de Rita. Aos 3 meses de gravidez Joana viu-se obrigada a pedir ajuda aos pais e retornar àquela que tinha sido a sua casa.
Os pais desta, por sua vez, tiveram dificuldade em aceitá-la, ou não fossem eles senhores da alta sociedade. Ele tinha sido um dos maiores advogados de Lisboa, António de Vasconcellos de seu nome. Ela, Madalena Pinto de Vasconcellos nunca trabalhara. Os rendimentos do marido eram mais que suficientes para sustentar a família e uma pequena, grande casa em Sintra, mais propriamente em Colares.
A neta, Rita, cresceu no meio de dinheiro. Estudou no melhor colégio privado do país até que, quando tinha 15 anos convenceu os avós de que queria ir estudar para um liceu público.
E assim foi. Aos 15 anos, em plena adolescência, mudou-se para o liceu Rainha D. Amélia, em Lisboa. Foi lá que passou os melhores momentos da sua vida. Aluna com média de 19, podia ter tirado Medicina, como queria o seu avô. Mas decidiu-se por Marketing e Publicidade ou não fosse ela uma criativa.
Aos 24 já tinha a sua independência financeira e acabara de comprar casa na artéria da cidade: Bairro Alto.
Como já disse, sempre foi uma rapariga habituada a ter tudo o que queria e quando metia na cabeça que queria alguma coisa, tinha de possui-la. Fosse por onde fosse.
Até nas paixões funcionava assim. Quando se perdia de amores por um rapaz, tinha porque tinha de conquistá-lo até tê-lo só para ela.
Rita namorava há 3 anos com Miguel e os planos de casamento começavam a passar de um simples projecto para algo mais concreto.
O noivo, engenheiro civil de profissão, era um homem às direitas. Sincero, amigo, delicado, meigo e para além dos adjectivos que qualificam a sua maneira de ser, era um jeitoso. Alto, moreno, com um olhar de derreter icebergues e um sorriso de aquecer qualquer país com temperaturas abaixo dos 50º negativos. Sim, era aquilo que nós, mulheres, chamamos de “Pãooooooooooooooo”!!!!!!!!!!!
Rita sabia-o. E elogiava o namorado todos os dias.
Num final de tarde, quando Rita se preparava para sair do trabalho e ir jantar com Miguel, este liga-lhe.
-Sim, querida?Sou eu.
-Oláaaa sol. Rita tratava o namorado por “sol”. Coisa de gajas!!!!
-Rita, estou atrasado. Não sei a que horas consigo sair do estaleiro. Diz Miguel.
-Ohhhhhhhh, não vamos jantar os dois??
-Vamos, se quiseres jantar à meia-noite. Responde Miguel.
-Ok, eu fico aqui na empresa mais um tempo e depois logo me dizes a que horas sais, está bem?
-Querida, vou ficar a fazer serão… É melhor ires para casa. Depois passo por lá para te ver e dar-te um beijo. Pode ser assim?
-Que remédio, não é?Se soubesse que namorar com um engenheiro civil era assim, nunca teria aceite namorar contigo, oh mestre-de-obras!!Resmunga Rita.
-Vá, refilona, até logo. Um beijo doce.
-Xau trolha!Beijo. Diz Rita.
-Que seca!!!!!E logo hoje que estava desertinha para por os patins fora daqui!!Estou fartinha de trabalhar!!Diz Rita sozinha.
O dia tinha sido duro. A tarefa de apresentar um trabalho a uma firma irlandesa tinha sido desgastante.
Rita, nos seus poucos momentos sem trabalho, costumava navegar pela internet. Ver blogues, era o seu passatempo de eleição para ocupar tempos mortos que tinha na empresa.
Naquele dia, preferiu vaguear por um canal de conversação, os tão conhecidos chat’s.
Por entre tantos nicks, lá encontrou um que chamou a sua atenção: BlackMan.
E o que é que este nick tinha de tão especial?À partida, nada. Ou não fosse a paixão que Rita tinha por África e o desejo imenso de conhecer o chão que tem terra cor de laranja.
-És negro ou é apenas o nick?Aborda Rita.
-E tu, és sempre tão directa nas tuas entradas?Responde-lhe o estranho.
Pergunta atrás de pergunta, a conversa estende-se até 2 horas depois. Rita perdia-se no tempo e estava a adorar aquele momento virtual.
-Porra!!!Pensa Rita. Tenho que me ir embora. É tardíssimo.
-Black, está na minha hora. Gostei desta troca de palavras. Diz Rita ao nick.
-Já vais?Voltamos a falar?
-Talvez sim, ou não!!Tudo de bom para ti. Despede-se Rita.
-Adeus matadora. E vê se numa próxima entras com mais calma. ;)
Rita saíra a voar com destino a casa. Afinal de contas, Miguel ia lá passar quando saísse do trabalho.
Depois de comerem uma sopa e um quiche de cogumelos, Miguel diz a Rita que precisa de falar com ela. Rita percebeu no semblante do namorado que algo se passava.
-Que se passa Miguel?
-Querida, vou ter de ir trabalhar para Inglaterra.
Rita não escondia a sua tristeza e no seu íntimo era como se uma parte de si fosse embora.
-Para Inglaterra?Por quanto tempo?
-Pois, rodinhas baixas. Vou ficar um período experimental de 1 ano e depois logo se vê.
-Logo se vê?Responde Rita.
-E o nosso casamento??E a nossa vida??
-Rita, temos telefones, internet. E podes ir sempre ter comigo um fim-de-semana ou outro.
-Sim, Miguel. Mas... E os planos que tínhamos feito??Pergunta Rita.
-Vão ter de esperar.
Rita tinha a certeza, que a partir daquele momento a relação estava condenada ao fracasso. Ela não acreditava em relações à distância. Era uma mulher que precisava de ter o homem que ama perto. Precisava dos beijos, do calor, do afecto ou da simples presença de Miguel.
Com um tsunami na vida de Rita, a semana seguinte foi para esquecer. Entre lágrimas, ranho, lágrimas e ranho acompanhou o namorado ao aeroporto.
-Rita, ficas bem?Pergunta o ingénuo ou pateta do Miguel.
-Se fico bem??????!!!!!!!Deve ser uma retórica, espero. Oh Miguel, não gosto de despedidas, por isso vá, faz boa viagem.
Trocaram um beijo frio, sem alma. Será que Rita estava decidida a não acreditar no futuro daquela relação?!
Quando deixou o aeroporto, Rita foi trabalhar. Afinal de contas, nada melhor do que trabalhar, ocupar a cabeça com mais e mais coisas para não pensar em Miguel.
Eram 23h30 e ainda estava na empresa, até que decidiu que para aquele longo dia, bastava. Ia para casa. Ou talvez não!
A história não termina aqui. Neste rio ainda muita água vai correr. Mas ficará para um próximo episódio.

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