terça-feira, 3 de novembro de 2009

Um sonho com vinho


Foi em Novembro do ano passado que tive um dos piores dias da minha vida. Pelo menos, assim o previa.
Cansada depois de um dia de trabalho intenso, estava decidida a ir até Belém apanhar ar, sentir o cheiro daquele belo rio, sentir a brisa fluvial na cara, no corpo, na alma apesar dos 2º assinalados.
Eram 19:45, quase horas de jantar e sentia-me tensa. Precisava de relaxar.
Meti-me no carro e fui até um Irish Pub que fica ali por aquelas bandas.
Quero qualquer coisa forte, pensei!! Qualquer coisa que me aqueça.
Eu, que não costumo beber, bastaria um copo que contenha qualquer coisa com etanol para me sentir a ferver.
Qual quê?!!
A ementa sobre a mesa fazia com que me sentisse uma perfeita ignorante.
Não percebia nada de nada daquelas bebidas.
Mal por mal, lá me fiquei pelo vinho... Tinto! Por quê tinto?Não sei!
Lá pedi ao funcionário que atrás do balcão absorvia o travo do seu belo cachimbo que me fez recordar uma das mais belas obras: o Garçon à la Pipe .
-Desejo uma garrafa de Vinho Grão Vasco, por favor.
-Sim senhora, responde com um sorriso nos lábios.
É hoje que apanho uma piela que nem saberei de que terra sou, pensei para com os meus botões.
-Aqui tem o seu pedido, senhora. Tenha um bom momento, diz-me o atrevido do funcionário.
-Terei, com certeza, respondi-lhe com afinco.
Para não dar muito nas vistas, toquei suavemente na taça... olhei-o. Aquela cor vermelha fez com que o comparasse a um rubi.
De seguida cheirei-o... Black!!!!Que cheiro a mosto!! Como pode alguém achar que o odor desta bebida tem notas florais???Tem uma ova!Tem é notas de uvas e mais uvas!!
A minha sabedoria nesta matéria estava condenada, porém não desisti e segui em frente.
Depois de sentir o aroma do vinho, levei-o aos meus lábios e todas as ideias preconcebidas e idealizadas dissiparam-se por entre os sorvos de uma obra de arte. Sim, aquela bebida, a partir desse dia, transformou-se numa peça de arte. E daí em diante entendi o que um senhor outrora me tinha dito: "Degustar um copo de vinho é como que apreciar uma peça de arte. É pura cultura!!".
Passaram-se uma, duas horas até começar a sentir-me tonta. O fogo apoderou-se do meu corpo e finalmente senti-me relaxada. Para ser perfeito, só faltava tirar os sapatos de salto alto, o vestido de seda preto e ficar deitada a ver a chuva caindo lá fora.
-A conta, por favor. Peço, numa ânsia de chegar a casa, despir-me e enfiar-me no duche.
-Senhora, a conta já está paga!
-Paga???Como já está paga??Perguntei estupefacta.
-Parece que tem um admirador nesta sala, responde-me com um ar malicioso.
-Admirador????Eu???Espere lá. Eu é que bebi umas quantas taças e você é que diz disparates??Ore poupe-me.
-Naquele canto, junto à janela está um senhor. Consegue vislumbrá-lo?
-Sim, mas o que tem o senhor em questão?
-Pois bem, cara senhora, foi ele que lhe ofereceu o presente.
Com esta afirmação, tudo me caíra. A mala caiu, espalhando as bugigangas inúteis que teimo em ter. O mundo desabou em mim. Os meus olhos não paravam de fintá-lo. Oh não... não!!!!!!! O gajo levantou-se, e... Ai, que merda!!Vem na minha direcção!!!!
Estava completamente desconcertada, sem saber o que pensar, fazer ou dizer.
Controla-te Rita, dizia-me uma voz interior.
Agora é tarde!!!Respondi-lhe eu.
-Boa noite, disse ele.
Passado um minuto de pura parvoíce anestésica, entrei a matar:
-Oferece sempre qualquer coisa a mulheres que lhe são estranhas?
-Não, ofereço apenas às que me fazem lembrar uma melodia de Bach.
Fiquei parva!!!!!Parva não, porque já estava. Fiquei foi ainda mais parva!!!!!Estava a derreter por dentro, mas mantive a postura.
-Ah, percebo. Não sabia que tinha cara de enjoada!!!
-Perdoe-me menina. Ou será senhora?Pergunta ele a sorrir.
-Pois por ser para si, é senhorita!!!!!
-Senhorita?
-Sim, porquê?Vê algum problema nisso?
-Muito pelo contrário. E se visse algum problema, seria o mais prazeroso problema que alguma vez tive na vida. Mas diga-me... Qual a sua graça?!
-Rita.
-Manuel. Encantado!
E ao mesmo tempo que se apresenta, estica o braço e beija-me delicadamente a mão.
Já não existem homens assim, pensei para comigo. Hummmm, isto traz água no bico.
Cala-te Rita! Novamente a voz interior a melgar-me. Chega de ser desconfiada. Aproveita o momento!
Sim, de facto a voz, aquela voz que eu desconhecia ser minha, tinha razão.
Não sei quanto tempo passou, sei apenas que o Manuel se sentou à minha mesa e perdemo-nos numa troca de palavras que fez com que sentisse que o conhecia há uma eternidade.
Bebemos mais uma garrafa, desta vez escolhida por ele. Suave, delicado, doce. O vinho, claro!
-Bem, Manuel, lamento mas já é tarde e amanhã é dia de trabalho. Afirmei sabendo que ao ir embora nunca mais o via.
-Permita-me que a leve até ao carro.
(Percebem agora o que quero dizer???É que tipos destes viraram todos maricas!!!!
Estarão a pensar se este também será maricas??Terão de ler até ao fim para obter a resposta).
Chegados ao carro, permanecemos em silêncio.
-Gostei muito de conhece-lo. Obrigada por este fim de tarde.
-Quer jantar comigo?Apanha-me ele de surpresa.
Sorri e o meu sorriso disse tudo.
Fomos para casa dele. Uma casa restaurada. Simples, mas linda. Um primeiro andar e umas águas furtadas com uma varanda repleta de flores. Dois quartos, um escritório, uma sala com uma lareira feita de pedra, cozinha e dois quartos de banho. O chão era de madeira antiga e ainda tinha marcas deixadas pelo caruncho. Todos os compartimentos tinham janelas por onde entrava uma luz vinda de fora. A lua iluminava cada cantinho. Quase que arriscava dizer que o Manuel tinha comprado o satélite só para a ocasião.
-Tens uma casa linda, disse-lhe enquanto ele fazia o jantar.
-Era a casa dos meus avós. Foi aqui que passei os melhores momentos da minha vida juntamente com os meus irmãos. Quanto era puto, ia para o terraço ver as estrelas e chegava a adormecer numa cama de rede feita pelo meu avô.
-Não és de Lisboa?Comecei eu a tentar saber um pouco mais sobre o Manuel. O Manuel que parecia um sonho. O Manuel que parecia ilusão.
-Não, sou do Norte. Nascido e criado no Porto.
-Ahhhh, então percebo. Estás habituado a mulheres com mau feitio. Daí a tua reacção quando mostrei as garras lá no bar.
-Rita, se há coisa que aprendi foi a domar uma leoa!
(...)
Aquela frase não me tinha caído nada bem. Domar??Quem é que ele pensa que é??Um homem do circo, querem ver?!!!
-Quero ver esse domador de feras, disse-lhe piscando o olho.
O jantar estava divino!!
Filetes de pescada enrolados em alho francês cozinhados no vapor e um arroz de legumes perfumado com alecrim.
Para a sobremesa... Bom, essa ficou para mais tarde.
As horas voavam... eram 1h da manhã e nós ali à mesa em plena amena cavaqueira.
-Tomamos um chá na sala?Pergunta-me.
-Que excelente ideia. Adoro chá.
A lareira trabalhava arduamente e o calor fazia-se sentir em toda a casa.
Finalmente, sentei-me no sofá e o grande momento acabou por chegar.
-Uffaaaa, que alívio. Estes sapatos matam-me!Resmunguei esticando os pés.
-Dá cá!
O Manuel acabara de me pedir os pés!!!!Será possível???Os meus pés?!!!!!!Será que ele é bruxo??Pensei. Sim, só um bruxo para saber que os pés são o meu ponto fraco.
-Bem, moça, estás mesmo tensa!Ripostou.
-Não sabia que eras expert em reflexologia, disse-lhe sorrindo.
-Há muita coisa sobre a minha pessoa que não sabes, mas que, com o tempo, terei todo o gosto que saibas.
Só me faltava esta!!Será o gajo larilas??!!!!É que é bom demais para ser verdade.
-Estás a corar, Rita. Envergonhada?
-Qual quê, achas?É do calor que vem da lareira.
Era do calor, era!!!Manda-lhe com intrujices para cima que ele vai cair que nem um patinho!!
De facto o calor que sentira não tinha origem apenas na lareira. Aquele homem mexia comigo. Naquele instante sentia que ele era o poema que me faltava para ser feliz. Era. Tinha a certeza. Era ele. O Manuel.
Não sei precisar, mas foram muitos os minutos que permanecemos a olhar-nos sem uma palavra dizer.
Minutos suficientes para fechar os olhos e conseguir desenhar o rosto dele numa tela.
Minutos que bastaram para sentir a minha alma a transbordar de essência.
Minutos que me fizeram sentir, de novo, viva.
E finalmente minutos que chegaram para acordar de uma noite de sono e ficar perplexa porque afinal aquela imensidão de sentires não seriam nada mais, nada menos que um sonho.

3 comentários:

  1. Olá!
    É um previlégio ser o primeiro a comentar, mas não creio que seja o primeiro admirador da tua escrita.

    Fizeste-me sonhar com este texto, a tua criatividade é demais evidente, conseguindo para quem lê, crie em cada frase todo aquele cenário.

    Gostava por momentos ser o Manuel, para beber o que quer que fosse, termos dois dedos de conversa, mas a única coisa que tenho em parecido com ele, é ser do Norte, quase do Porto!

    Espero por outros momentos no blog, para embalar-me na simplicidade e beleza das tuas palavras. Um beijo

    ResponderEliminar
  2. Olá Mico.
    Gostei imenso das tuas palavras, mas gosto ainda mais de saber que gostas do que escrevo.
    Podes muito bem ser o Manuel. O meu Manuel. Afinal de contas quantos Manéis não mergulham no papel?
    Quem sabe se o nome do personagem da história de amanhã não se chamará Mico?:p
    Um beijo e um obrigada.

    ResponderEliminar
  3. Eterna sonhadora... excelente!

    Em dois dias ainda não li o blog todo, mas espero não o ter que ler em três.

    Continua Rita!

    ResponderEliminar