
Eles conheciam-se desde miúdos.
Foram da mesma turma desde a escola primária e só se separaram quando ingressaram no ensino superior. Ela optou pela grande paixão da sua vida, a fotografia. Ele, mais pragmático, mais racional tirou matemática aplicada.
Actualmente, Rodrigo estava com 31 anos e Rita com 30 e ninguém diria que os melhores amigos se teriam separado, para nunca mais se falar, até ao grande dia.
Rodrigo e Rita eram inseparáveis. Iam juntos para todo o sítio e não havia nada que não soubessem um do outro. A cumplicidade que os unia era simplesmente abismal. Causava calafrios aos restantes membros do grupo de amigos, que entre si, apostavam que aqueles dois iriam casar e ficar juntos para sempre.
A aposta não foi ganha. Eles não teriam casado e não teriam sido felizes para sempre, como os contos cor-de-rosa.
Como disse lá atrás, deixaram-se de falar.
Rita era uma rapariga que andava constantemente no mundo da lua. Era uma sonhadora nata e nas suas veias não corria sangue. Corria sim sensibilidade. Mas não aquela sensibilidade de choramingas. Tinha sensibilidade artística. Tudo para ela era arte. Um sorriso de um desconhecido, a chuva a cair energicamente, um olhar ou até o simples cair de uma folha.
Era uma romântica, sempre bem disposta, contagiava tudo e todos com o seu sorriso fácil e força interior. Vivia o agora como se não houvesse amanhã e aposto em afirmar que para Rita não havia mesmo amanhã. Por isso a sua vida era uma correria constante.
Rodrigo, era um tipo calmo, ponderado. Não era fácil mostrar-se simpático, porém quando estava ao lado de Rita, parece que se transformava.
Eram um belo par de jarras. Se não fossem filhos de pais diferentes, todos diriam que eram irmãos, de tão iguais e diferentes que se mostravam ser.
Era em Rodrigo que Rita tinha o seu porto de abrigo. Era em Rodrigo que Rita encontrava um ombro sempre que precisava de chorar, ou ouvidos quando mais ninguém a ouvia.
Por sua vez, era em Rita que Rodrigo encontrava a sua paz, era em Rita que Rodrigo sentia o seu verdadeiro eu.
Quando ele tinha 25 anos e ela um ano a menos, foram jantar fora com os amigos para comemorar o fim da faculdade. Rodrigo já arranjara emprego. Um cargo numa empresa qualquer de informática. Ia ganhar bem, para quem acabara de se formar. Era importante para Rodrigo ser bem remunerado. Era como se fosse a gratificação pelo seu bom desempenho.
Por sua vez, Rita não sabia o que fazer. Tinha o curso de fotografia e uma sede imensa de ir mundo fora fotografar o que esperava ser gravado pela objectiva.
Depois de um jantar bem comido e bebido, despediram-se dos amigos e seguiram no carro de Rita, um Mini que outrora tinha sido do seu avô. Nada comparado com o Audi TT de Rodrigo, mas a filosofia dela não permitia andar em carros que custassem mais de dez mil euros. Vá-se lá perceber!! Mulheres!
Seguiram estrada fora, sem destino certo.
Mas Rodrigo conhecia bem a loucura de Rita e algo lhe dizia que o destino tinha areia. Areia e mar.
E assim foi. Rita estacionou no Guincho e desafiou o amigo a ver quem chegava primeiro à água.
-Anda, vamos molhar os pés!!!!!!!
-És doida, Rita. Com este frio??Resmungou Rodrigo.
-Que pão sem sal que tu me saíste. Disse-lhe ela a gozar.
-Ai sim? Eu já te mostro quem é o pão sem sal. Sou um belo de um pão caseiro, isso sim!!!
-Blablabla. Cantarolava Rita.
-Estás pronta, miúda?
O desafio estava instalado. A tensão de chegar primeiro à água gelada da praia subia exponencialmente.
-Vamos nessa, betinho!
-Um... dois...
-Ei, calma lá oh Rita.
-Três!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rita corria desalmadamente até à praia. Rodrigo ficara para trás. Mesmo depois de tantos anos, ele esquecera que Rita era uma batoteira. Ela fazia sempre o mesmo!!!!
Quando chegaram à água, estavam exaustos. A respiração ofegante fazia sentir-se a milhas e milhas de distância.
-Oh coisinho, estás mesmo fora de forma, hein???Atiça Rita.
-Com batoteiras como tu, qualquer homem chega no lugar que cheguei!
Passados uns minutos, sentaram-se na areia e ficaram ali... a contemplar o mar.
-Sabes uma coisa Rodrigo?Pergunta Rita, quebrando um doce silêncio.
-Hum?
-Um dia ainda vou à Lua!!!!
-Ahahahaha. Lá estás tu com os teus sonhos impossíveis de realizar!
-Isso, goza. Mas sabes que mais?????Tu vais comigo!!!!!!!!!!!!!Bombardeia Rita.
-Está bem Rita!Um dia, iremos os dois à Lua.
Deram a mão e permaneceram aninhados num infinito que não mais parecia terminar.
-Rodrigo... Amo-te.
-Eu sei amor. Eu também te amo. Responde-lhe Rodrigo.
Rodrigo, coloca a mão na cara de Rita. Aproxima-se docemente e beija os seus lábios.
Rita corresponde ao beijo e bebem os beijos um do outro como há muito desejado.
A noite voou e já de madrugada decidiram ir para casa.
Cada um para a sua.
Às 13h27 o telemóvel de Rita toca. Recebida uma mensagem.
-Porra, mas quem é que me está a melgar a esta hora????Quero dormir!!!!!
Com os olhos por abrir, apalpa a mesinha de cabeceira em busca do objecto que tinha emitido um som irritante.
"Não tenho palavras para exprimir a noite de ontem. Amo-te Rita!".
Não, aquilo não estava a acontecer. Pensou Rita.
-O que é que eu faço agora???Respondo-lhe que também gostei????
-Não, é melhor não. Ou mando?
Rita ficou a olhar para a mensagem de Rodrigo e num impulso pateta beijou o telemóvel e voltou a dormir.
Passadas três horas, Rodrigo insiste e liga-lhe.
-Estou??Atende Rita.
A voz não era a mesma. Estava fria, distante.
-Rita, sou eu. Estás bem?
-Sim Rodrigo. Estou.
-Hummmm, não respondeste à minha mensagem. Nem sequer me melgaste como de costume.
-Estava a dormir, Rodrigo.
Ele sabia que algo se passara. Será que o beijo e a dedicatória de amor eterno tinha tido um impacto tão profundo ao ponto de Rita mudar o seu comportamento?
A verdade é que o interior de Rita estava uma montanha russa. Ela não sabia o que sentia e o que sabia sentir pensava que era confusão sua.
Rita queria-o. Desejava-o todas as noites e os dias. Mas não sabia até que ponto ia aguentar perder o grande amigo da sua vida.
Os dias passaram-se.
Um mês, dois meses... seis meses e eles nunca mais trocaram uma palavra.
É impressionante como um beijo e umas palavras podem mudar as nossas vidas.
Rita estava em Amesterdão. Tinha ido tirar uma especialização em fotografia a preto e branco. Há dois anos que não vinha a Portugal. Não podia vir.
Portugal fazia-a lembrar Rodrigo e tudo o que ela não queria era pensar nele.
Rodrigo, por sua vez, tinha subido de cargo na empresa de informática. Era o director e responsável pela marca.
Estava bem na vida. Tinha comprado casa no Estoril, namorava há uns meses com Sara e daí a 4 meses iam casar.
Rita estava sozinha. Saía de quando em vez com um ou outro holandês, mas nada sério. Estava empenhada em ser uma fotógrafa de sucesso e qualquer caso que implicasse mais do que apenas sexo estava fora dos seus planos.
E o que desejava tanto ia ser daí a uma semana, a grande exposição inaugural de um espaço dedicado à cultura, em plena cidade de Amesterdão.
O cheiro vindo dos canais, as cores das casas, as bicicletas, a frenética capital holandesa era o local perfeito para ela se estrear.
Rita enviou por correio electrónico a informação de que ia fazer uma exposição de fotografia e que fazia questão de ter os seus amigos naquela que seria a rampa de lançamento para o sucesso.
Não. Ao Rodrigo nada disse.
-Sabes que a Rita vai fazer uma exposição daqui a dias?Pergunta Nuno a Rodrigo?
Rodrigo fica em silêncio.
-Não, não sabia. Aliás, não falo com ela há mais de dois anos. E o que sei é através de ti.
Nuno era um dos melhores amigos de Rodrigo.
-E não queres ir?Pergunta Nuno.
-Estás doido???!!!!!Ela não fala comigo, não me convidou, não me diz sequer que está viva e ia eu feito parvo para Amesterdão para a exposição como se tivesse sido convidado. Além de que, a Rita é passado. Não quero saber. Estou com a Sara e é com ela que vou casar.
Rodrigo tinha falado correctamente. Era com Sara que ia casar, mas o seu inconsciente gritava por Rita.
-Man, tu é que sabes!Acho que podias muito bem ir.
-Não vou e ponto final. Acabou-se a conversa.
A exposição foi, tal como Rita ansiava, brilhante. De facto, ela tinha uma sensibilidade peculiar para fotografar. Fazia de uma banalidade uma obra de arte.
Na véspera do casamento de Rodrigo e Sara, a avó de Rita caíra e partira um pé.
-A avó o quê???Pergunta Rita à mãe.
-Calma, querida. A avó tropeçou num tapete lá de casa e fracturou o pé, mas não é nada de grave.
-Oh mãe, a avó tem 87 anos e não é nada de grave???
-Rita, a avó vai ficar bem.
-Vou hoje mesmo para Portugal!E não adianta dizeres que não vale a pena, porque já me decidi!!!Vou e mais nada.
-Como se eu conseguisse ir contra a tua teimosia, Rita.
-Vá, mãe. Quando chegar a Portugal ligo-te. Beijinhos.
-Beijinhos, querida. Faz boa viagem.
Depois de se certificar que a avó estava bem, jantou com os pais e foi tomar café com uma grande amiga, a Ana.
O Belém Café fora a escolha para colocarem a conversa em dia.
-Conta-me Rita, que tal foi a exposição??Tive imensa pena por não ter ido. Mas estava a trabalhar e foi mesmo impossível.
-Oh, não te preocupes com isso. Correu tudo bem, estava linda!E se as fotos não tivessem sido tiradas por mim, diria que não eram reais!
-Ah, grande artista!!!!Já te estou a ver a brilhar ao lado de Tillmans, Morath ou mesmo Lee.
-Não sejas tonta!!Diz Rita com um sorriso de quem deseja o que a amiga acabara de comentar.
-Rita, sabes quem casa amanhã?
-Quem?
-O Rodrigo!
O mundo de Rita terminara ali, naquele momento.
-O Rodrigo vai casar?!!Pergunta, desiludida.
-Vai, amiga.
Rita passou a noite sem pregar olho. Na verdade, nem se deitou. Andou pela casa fora que nem uma barata maluca.
-O que é que eu faço à minha vida??Ele vai casar...
Enquanto toma um duche, faz a escolha que mudará a sua vida.
Veste umas calças de gangas rotas no joelho, calça uns ténis, veste uma camisola e mete-se no carro. Destino: casa dos pais de Rodrigo!!!
O noivo vestia-se no quarto de hóspedes. O seu estava desarrumado o suficiente para ele não se sentir à vontade para o efeito.
Enquanto isso, Rita falava com Olga, a mãe do noivo.
-Por favor dona Olga, eu preciso mesmo muito, muito de falar com ele. Peço-lhe...
-Querida, sobe e espera por ele no quarto. Responde Olga com uma esperança que o filho ainda possa escolher ser feliz.
-Rodrigo, posso?
-Sim, mãe. Entra.
-Querido, está uma pessoa no teu quarto que precisa de falar contigo.
-Uma pessoa???No meu quarto???Mas quem?
-Querido, sei que devia ter dito isto há muito tempo, mas ainda vou a tempo.
-Dizer o quê, mãe??
-Casar com quem não amamos é como viver-se preso numa fortaleza sem janelas ou portas. Não vemos o sol, as estrelas...
-O quê???Mas o que é que me quer dizer??
-Meu filho, estou ao teu lado seja qual for a tua decisão. Agora vai lá.
A minha mãe está passada ou quê??Pensou Rodrigo para com os seus botões.
Rita aguarda a chegada dele sentada na cama onde Rodrigo sempre dormiu. Fechou os olhos, inspirou e sentiu o cheiro dele a invadir-lhe as narinas.
-Que saudades deste cheiro!!Do teu cheiro, Rodrigo. Diz Rita para si mesmo.
Aquando a entrada dele no quarto, ambos ficaram imóveis. Sem saber o que fazer, pensar ou dizer Rodrigo fecha a porta e quando vai para abrir a boca, Rita interfere.
-Não digas nada, por favor. Deixa-me dizer-te o que quero ou não terei mais coragem.
E assim foi. Rodrigo permaneceu calado com todos os seus sentidos sobre Rita.
-Eu sei que errei ao teu fugido de ti. Sei que fiz asneira e não espero que me perdoes. Mas não sabia o que fazer. O que sentia por ti era tão forte que me fez andar perdida. Fui burra e estúpida. Eu sei. Mas não podia deixar que te casasses sem dizer o que significas para mim, Rodrigo.
-Rita, cala-te. Não quero ouvir mais nada!Eu vou casar daqui a uma hora!!!!!!Sabes o que isso significa????Estás dois anos e meio atrasada!!!!!!!!!Desaparece do meu quarto, como desapareceste da minha vida!!!!Sai!!!!
-Eu vou embora… Não te preocupes. Mas antes tenho que te dar uma coisa.
Rita tinha feito, enquanto estava na Holanda, um foguetão de papelão.
-Toma!
-O que é isto, pergunta Rodrigo. Um foguetão??Mas que raio...
-Rodrigo… És a música que alegra a minha vida. És o poema que quero ler todos os dias. És o comboio que quero apanhar. És o abrigo onde quero permanecer. És o creme da bola de berlim. És a bateria do meu telemóvel. És o perfume que preciso para que a minha vida faça sentido!!!
No meio de tanta patetice, Rodrigo esboçou um sorriso.
-Rita, continuas a mesma parva de sempre.
-Rodrigo, estou a falar a sério!!!!! Amo-te. E o que sinto vive em mim há anos e anos e sei que a minha existência só faz sentido a teu lado. Só poderei voar até à Lua se voares comigo. Lembras-te de te ter dito isto naquela noite no Guincho? Pois bem, foi para isso que fiz o foguetão.
-Vem… Dá-me a tua mão e voa comigo.
(...)
Será que um amor escondido e fugido terá uma nova oportunidade?Ou será tarde demais?
Um dia saberão a resposta!
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